A baixo dos oitenta


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A baixo dos oitenta .. 

não me lembro da ultima vez que estive a baixo dos oitenta. lembro me sim de durante muito tempo me tentar enganar, dizendo que jamais chegava aos oitenta, podiam faltar uns milésimos, mas não chega lá. até que enfrentei, o que na altura achava que era um pesadelo, a balança no consultório médico...e o pesadelo começou a ganhar vida, os números foram subindo e não pararam antes do maldito oito acompanhado de outro algarismo qualquer. lembro me de ser um choque, de sentir um aperto no coração, de ter vontade de chorar. e de dizer para mim mesma: "estavas a espera do quê? a culpa é tua." e depois, depois passou. não me sentia mal comigo mesma, não tinha vergonha do meu corpo como tivera há uns anos. gostava de mim, das minhas curvas rechonchudas e até me achava sexy. por isso os oitenta não me assustaram mais. 

havia alturas em que disse lo não era fácil, muitas vezes com medo de julgamentos. mas na maior parte do tempo não estava preocupada com isso. só não queria chegar aos noventa, por isso voltava a evitar o monstro da balança com medo de más notícias. "Quanto é que a menina pesa, sabe, ou precisamos de a pesar?" Perguntava a enfermeira. "O mesmo que da última vez, não engordei nem emagreci nada, tenho a certeza." Era a minha resposta, sempre. Mas sem nunca ter certezas... e fui me deixando ficar, não me sentia mal, não tinha nenhuma doença devido ao excesso de peso, gostava de mim como estava. felizmente, nunca cheguei a ver um nove como primeiro algarismo. estava bem. sabendo que apesar de estar bem, aquele oitenta e tantos sempre me fez alguma confusão. gostava que ele não aparecesse mais, mas fui me deixando ficar. Das poucas coisas que me deixam mais triste, às vezes, é por nunca poder trocar de roupa com nenhuma das minhas irmãs como elas fazem todas entre elas... mas passa, a minha auto-estima há vários anos que foi reconstruída, e ainda bem. nunca deixei de comer o que me apetecia, nem ligava a dietas nutricionais para uma alimentação mais saudável. até que de há uns tempos para cá, a curiosidade bateu me a porta. comecei a ler, a pesquisar, a fazer perguntas a interessar me por uma alimentação saudável. e descobri que é tudo uma questão de sabor, e que a dita "comida saudável" pode ter tanto ou ainda mais sabor que qualquer prato calórico cheio de açúcares. e percebi que, ok eu não me sinto mal comigo mesma, não tenho doenças, mas tenho consciência de que não tenho uma boa alimentação, e que a probabilidade do meu quadro clínico mudar com o tempo é enorme devido ao excesso de peso. e percebi que tentar melhorar a minha alimentação não custava nada. não era uma questão de me sentir melhor ou pior, era uma questão de ter consciência das coisas e de saber o que seria melhor para mim mesma. e desafiei me. desafiei me a ter uma alimentação mais saudável, a procurar alternativas saudáveis mas tão ou mais saborosas.  ter cuidado com os hidratos de carbono principalmente à noite, enriquecer a minha alimentação com verduras e frutos, tudo natural, sem adicionar açúcares. não me fixei uma meta a nível do peso. só queria sentir me mais saudável. e a verdade é que comecei a ver mudanças. na energia então e também comecei a dormir melhor, finamente disse adeus aos pesadelos. sim, a falta de sono ou o mal dormir tem muito a ver com a nossa alimentação. o estômago é o nosso segundo cérebro, e se esse não está bem, então o principal também não vai estar. os números na balança começaram a descer, a um ritmo normal, nada de grandioso, mas foram descendo aos poucos.  felizmente abri ainda mais horizontes, comecei a ir ao ginásio algum tempo a seguir. infelizmente não tantas vezes como desejava, mas as vezes que ia era um alívio, um anti stress fabuloso. quem diria. eu com vontade e a gostar ir ao ginásio, que equivale a desporto. até eu estou parva comigo mesma. mas não me deixei ficar por aqui. decidi fazer uma mudança um pouco mais radical ainda no que diz respeito a minha alimentação. muito por uma questão de consciência, e porque finalmente me senti preparada e suficientemente informada e consciente do tipo de cuidados que tenho de ter. sou vegetariana há quatro meses. e sinto me mais leve, isto no lado espiritual da coisa. mas isso é conversa para outro desabafo. o importante neste aqui, são os oitenta que desapareceram da minha vista. não sei se já reparaste...eu apercebi me agora, que ao longo deste grande desabafo, inconscientemente, ainda não disse uma única vez o verdadeiro número que tanto me assustava e no entanto ele já não faz parte de mim. mas não faz sentido continuar a escrever se não me livrar dele de uma vez por todas. era um oitenta e oito, um terrível oitenta e oito bem perto do noventa que tanto me fazia temer a balança. e agora, sem querer aqui estou eu. com menos dez kilos. e que diferença que isso faz. já o vejo, já o sinto. e a balança passou a ser a minha melhor amiga. não há uma manhã nem uma noite em que não me encontre com ela. não quero ficar obcecada com isto de perder peso, mas não quero nunca mais ver um oito como primeiro algarismo. a meta agora é chegar aos setenta certos. é um número redondo e mais bonito não achas? com esta, despeço me definitivamente dos oitenta sem um V de volta, mas sim um V de vai e não voltes. 👏🏻