Bolas, esteja eu onde estiver. Vou sempre ter esta vontade de voltar, vou sempre sentir saudades. Vou sempre sentir me preenchida mas ao mesmo tão incompleta... Hoje tenho duas casas e sei que sou feliz nelas duas, de maneiras diferentes mas sou. E por isso hoje... Eu... Quero tanto voltar mas não quero nada ir me embora.
Quero tanto voltar, mas não me quero nada ir embora.
Talvez seja por ter sempre recusado aceitar a realidade que agora me sinto como bombardeada por milhões de sentimentos. Tenho sonhos por realizar, e alguns deles estão quase a conhecer um início. Já falta menos de um ano para uma nova etapa começar. Já começo a sonhar com o meu catinho, a minha casinha pequena mas acolhedora, mas/e principalmente situada na minha linda Lisboa. Imagino como irei organizar as minhas coisas, em que parede vou expor as minhas telas, em que armário vou guardar as minhas recordações. E penso em como será tão bom estar de volta à casa. Até parece estranho imaginar o meu coração tão cheio de felicidade. Mas acredito realmente que não há nada melhor do que estar de volta, do que voltar. E não deixa de ser um sonho que eu vou realizar. E depois, e depois vêm os estudos. O meu sonho de ser alguém na vida, de ir para a universidade, de lutar pela minha independência e de fazer qualquer coisa de concreto e que me dê o futuro que eu idealize. Vai ser tão bom abrir as portas a dois sonhos ao mesmo tempo. Abrir as janelas para deixar o sol entrar, e mostrar a toda a gente o quanto feliz eu estou. Mas.... E esta vida deste lado? Afinal, serão quase 13 anos da minha vida vividos aqui, deste lado. Existe esta vida bolas. Esta vida onde eu construí carrinhos de felicidade para apaziguarem as saudades que eu tenho de casa. Esta vida onde eu conheci pessoas fantásticas e entreguei partes do meu coração a amizades eternas. Foi aqui que eu cresci, foi aqui que eu me fiz eu. Esta vida que me deu a melhor coisa do mundo, a possibilidade de ser escuteira. Este cantinho que eu temi durante anos a fio, porque teimava em apagar as luzes, fechar as persianas e não deixar qualquer tipo de apego crescer. Achava eu... Durante anos acreditava plenamente na frase que eu teimava em repetir vezes sem conta: "Eu não sou imigrante, estou apenas de férias prolongadas no Luxemburgo. E as férias acabam no dia em que acabar o 12 ano.!" Mas hoje, hoje eu vejo o quão estupida essa frase soa. Hoje, eu rio da minha figura de parva, sempre que repeti esta frase convencida de que estava a dizer a verdade. O quão estupida eu fui, por culpar o vazio que me invadiu durante todos estes anos, pelo facto de estar longe de casa. Sim, obviamente que não é fácil estar longe da família, estar longe da nossa casa, do que estávamos habituados. Mas a única e grande culpada por este vazio cessante, sou eu. Eu que ao rejeitar este lado da minha vida criava um vazio. Porque me recusava a aceitar o que este lado tinha para me oferecer, não queria abrir os olhos e apreciar as paisagens de dois lados de uma vida que tinha tudo para me fazer feliz. Criava filmes e fantasmas de como este cantinho não me podia dar o que estava do outro lado. E não, realmente não podia mesmo esperar que este lado da minha vida me desse o que o outro lado me proporcionava! Mas ignorante de não ver que este lado só me tinha a oferecer tudo o que completa as coisas do lado oposto. Este lado da minha vida, por outras maneiras era mais do que capaz de me fazer feliz. Mas felizmente eu abri os olhos, eu fui ainda mais teimosa e obriguei me a aceitar! E hoje, eu sou grata por tudo o que a minha vida me deu. Dois lados de uma vida tão diferentes um do outro, mas capazes de me completar de maneira igual... E hoje, apesar do bem que me fazem, ambos são capazes de me fazer tão mal. Vou voltar para Lisboa e vou deixar para trás, desta vez, o Luxemburgo. Estou feliz por voltar mas despedaçada por me ir embora. Ansiosa por uma vida nova e com medo de mudar a que tenho. Quero mais do que tudo realizar o meu sonho, mas também quero mais do que tudo continuar este que já cá estou a viver.